Quando a Falha do Sistema Também Ceifa Vidas
A história do “vaqueirinho” revela como o abandono, a negligência e o diagnóstico tardio moldam trajetórias marcadas por risco, dor e invisibilidade.
A trágica morte do jovem conhecido como “vaqueirinho”, de apenas 19 anos, que teve sua vida ceifada após invadir a jaula de uma leoa na Paraíba, expôs mais uma vez o impacto devastador do abandono, da negligência institucional e da ausência de diagnóstico precoce em saúde mental. Sua história, marcada por desamparo desde o nascimento, revela um ciclo doloroso que poderia ter sido interrompido se o olhar clínico e humanizado tivesse sido oferecido no tempo certo.
Desde cedo, o jovem foi envolvido em uma realidade emocionalmente devastadora. Sua mãe, diagnosticada com esquizofrenia, perdeu a guarda de seus quatro filhos ainda na primeira infância. Todos foram encaminhados ao abrigo. Porém, apenas ele permaneceu sem ser adotado — um indício de que sinais de transtorno mental já eram percebidos nos comportamentos apresentados, mas jamais investigados com profundidade.
Aos dez anos, foi encontrado caminhando sozinho à beira de uma BR, desorientado, vulnerável e completamente exposto ao risco. Levado ao Conselho Tutelar, teve ali o primeiro contato com a conselheira que acompanharia, ao longo dos anos, sua trajetória marcada por abandono e busca incessante por pertencimento.
A conselheira relata episódios repetidos em que o garoto se evadia do abrigo para ir até a casa da mãe, acreditando, com esperança infantil, que um dia seria por ela acolhido. Contudo, ao chegar, era devolvido pela própria mãe ao abrigo, ampliando ainda mais suas feridas emocionais e o sentimento de rejeição.
Seus atos infracionais começaram na infância, não como expressão de maldade, mas como gritos silenciosos de alguém que não foi visto. Em uma das ocasiões, ele chegou a invadir o aeroporto e esconder-se no trem de pouso de um avião, na tentativa desesperada de realizar o sonho que sempre verbalizava: ir para a África e cuidar de leões.
Uma semana antes de sua morte, foi preso por tentar arrombar um caixa eletrônico e arremessar pedras contra uma viatura policial. Ainda assim, seu comportamento continuava sendo rotulado apenas como “problema comportamental”, sem investigação adequada sobre sua saúde mental.
A ausência de estrutura familiar e institucional fez com que seu diagnóstico fosse adiado por anos. Somente em 2023 — já maior de idade, já dentro do sistema socioeducativo, já marcado pela exclusão — recebeu, enfim, o diagnóstico de esquizofrenia. Uma verdade que sempre esteve diante de todos, mas nunca foi tratada.
E aqui surge a reflexão que precisa urgentemente ser trazida ao debate público: quantas vidas, como a dele, poderiam ser salvas se a avaliação psicológica, psiquiátrica e criminológica fosse aplicada com seriedade, sensibilidade e responsabilidade? Quantas crianças e adolescentes não carregam, sozinhos, transtornos mentais não identificados, sendo empurrados para trajetórias de risco, violência e autodestruição?
E mais: os jovens que chegam ao sistema socioeducativo estão recebendo avaliações completas, profundas e responsáveis? Ou apenas mais rótulos, mais punições e mais invisibilidade?
A importância da Criminologia e da Psicanálise nesses casos
Casos como o do “vaqueirinho” demonstram o quanto o trabalho do Criminólogo é indispensável na análise comportamental. É por meio dele que os fatores sociais, emocionais, ambientais e psíquicos são compreendidos de forma integrada, revelando a estrutura que sustenta comportamentos de risco.
Somado a isso, o olhar da Psicanálise permite compreender as dores profundas, os traumas de infância, as repetições inconscientes e os transtornos mentais que moldam o sujeito. É essa combinação que torna possível não apenas identificar riscos, mas também construir intervenções verdadeiramente preventivas — especialmente quando aplicadas precocemente.
Se histórias como essa tocam você, é indispensável compreender que o debate sobre saúde mental, abandono, violência e diagnóstico precoce precisa ser ampliado. Continue acompanhando conteúdos que questionam, aprofundam e humanizam essas narrativas. Seu engajamento fortalece essa discussão.
Se você deseja compreender mais sobre comportamento, saúde mental, Psicanálise e Criminologia, entre em contato e permita que a reflexão continue além da leitura. Cada compreensão é um passo para transformar realidades.